Ele dirige brilhantemente tudo o que se propõe a fazer, faça chuva, faça sol, lá está de corpo, alma e coração em seu olhar cinematográfico. Convidei-o para dirigir o primeiro clipe que a Indie Bossa produziu com Ale Vanzella e eu que já era fã, pude conviver com a estrela desse cineasta, que posso com gratidão chamar de amigo. Com uma sensibilidade ímpar de captar e transformar o que de mais precioso existe, a emoção da vida humana em formas audiovisuais, ele conta um pouco da sua história e dos seus sonhos para nós aqui. Luz, câmera, ação! É com você Diretor, EDU FELISTOQUE.

 

Edu, onde e como foi a sua primeira experiência no audiovisual? Foi na casa de meu pai quando eu tinha oito ou nove anos de idade. Não foi um contato com tecnologia audiovisual desenvolvida pelo homem! Na verdade fiquei muito assustado e logo depois encantado. Nasci naquela casa, no bairro da Mooca, e em meu quarto existia uma vedação eficiente e quando fechávamos a porta e a janela não entrava nenhuma luz. Era uma escuridão sem igual. Meu pai dizia que era bom pra gente aprender a não ter medo de escuro! Um dia, tive uma surpresa incrível, um “fantasma“ de uma mulher caminhando de cabeça pra baixo na parede oposta a janela. Eu petrifiquei. Como o quarto era muito escuro eu nunca sabia se era noite ou dia. Foi tão real que eu não conseguia parar de olhar e não entendia porque aquela “entidade” estava de cabeça pra baixo, dai sai correndo do quarto gritando, rsrsrs. No outro dia, a mesma coisa. O fantasma tinha mudado, agora era um homem fumando… Tomei coragem e levantei da cama, então percebi ruídos de pessoas na rua e ja amanhecia lá fora. Abri a janela rapidamente, o “fantasma” sumiu. Foi então que percebi que o tempo passou e  que a janela de madeira do quarto foi se desgastando, provocando um pequeno buraco. Daquele buraquinho saía a imagem das tais “entidades”. Sem que eu soubesse, acabava de ter contato com a câmera escura de Leonardo da Vinci, o invento que deu base a câmera fotográfica e logo em seguida a câmera de cinema. Fiquei fascinado, comecei a estudar fotografia e estudo ate hoje!

Quando você escolhe um tema para rodar uma obra, esse contexto está ligado a emoções próprias ou você busca isso na vida das pessoas? A partir de fatos principalmente ocorridos comigo. Por exemplo: na “Trilogia da Vida Real”, os roteiros dos filmes “Insubordinados”, e dos inéditos, “Toro” e “Hector”  tiveram início a partir de algumas experiências pessoais e que depois foram  “mixadas” a outras vivências e também a imaginação, mas sempre calcado em uma verdade. Creio que o fato de também ser documentarista me ajuda muito sentir e mergulhar em histórias verdadeiras. Não tenho o hábito de buscar histórias na literatura, gosto de buscar na fonte, onde está acontecendo de fato e não na imaginação de uma outra pessoa. Isso não é uma regra! Hoje procuro sempre fazer o argumento e depois chamar outros roteiristas para uma criação “coletiva”. No fundo, eu me sinto mais a vontade  filmando algo que eu tenho certeza que aconteceu, mas não abro mão da imaginação e da fantasia!

Quais os maiores dilemas de um diretor de cinema? Nossa… sou movido por dilemas e por escolhas! A concepção da história é o que mais me preocupa, mais até que o grande dilema dos cineastas de hoje, a “captação de recursos”, principalmente via leis de incentivo. Meu dilema está sempre presente no momento de construir uma história livre que possa ser híbrida, em camadas, trazendo questionamentos sociais, filosóficos e existenciais e em outras camadas um pouco de entretenimento, emoções e sensações. Gosto de fazer filmes de autor que são livres e não “chatos”, daqueles que nascem divorciados do público. Não quero me vender para um cinema mega comercial, já fiz isso uma vez…  se um dia tiver que fazer “cinema comercial “ novamente, vou deixar mensagens subliminares de meus conceitos dentro do filme, só pra sacanear… kkkk

Conte uma passagem que você lembra e que te marcou profundamente nessas produções…   São várias. Mais especificamente o que me marca demais em todas as produções sem dúvida é o primeiro dia de filmagem, quando tenho o maior contato com as personagens criadas por mim e que já não são mais minhas, são dos atores. Ver e ouvir minhas personagens criarem vida é uma coisa meio “sobrenatural”. Atores e atrizes são  magos, fico muito emocionado e marcado. Me lembro de todas as sensações desse momentos com meus atores. É lindo, envolvente e mágico. Viro criança outra vez e choro! rsrssr

Quais suas principais obras e prêmios dos quais você se orgulha de ter conquistado. Poxa, tenho mais de 25 filmes no currículo, 10 longas. Difícil escolher. Mais de 30 prêmios, sei lá. rssrsr. Adoro o documentário “Zagati” que faturou grandes prêmios inclusive menção honrosa no festival de SUNDANCE. O longa “Inversão” com Giseli Itie, que ganhou como melhor filme pela crítica no festival de Cuba, entre outros longas… O que eu tenho observado, e’ que esse clima de “competição”  no festivais está cada vez mais sem tom, pois não se pode lidar com a arte cinematográfica como se lida com esporte onde tem que sempre ter  um vencedor. Nos festivais, hoje, se discute muito o desempenho, valores, conquistas das obras e raramente a estética e conceito. O clima de competição entre os realizadores fica insuportável. Eu na verdade acho uma conquista incrível ter conseguido realizar a “Trilogia da Vida Real”, já estou feliz com isso… Se vierem prêmios, que venham, eu dedicarei à equipe e ao elenco que merecem reconhecimento!

Onde você quer chegar?  Só caminhar já me basta! Poder continuar vivendo e me sustentando da arte que escolhi já é uma conquista  maravilhosa! Poder expor livremente meus pensamentos em meus filmes sem que tenha alguma força externa me perturbando, dizendo que eu tenho que usar um ator em evidencia ou mudar o roteiro porque isso “vende mais”, também! Continuar filmando para provocar reflexões, pensamentos, para a conquista da  igualdade, do respeito com as diferenças e principalmente a extinção do ódio mundial… dai, seria o máximo! Meus filmes mais perguntam que respondem!

Quem é EDU FELISTOQUE?  Sou um brasileiro, pai, realizador de cinema, fugindo do glamour, persistindo na honestidade intelectual e querendo um mundo melhor para todos!

Uma trilha para sua vida…   Xiii …Vai de Beetoven, passa pelos Rolling Stones, Caetano, Gil, Chico Buarque, Amy Winehouse, Adele, Chitãozinho e Xororó…Tudo vai depender do meu estado de espirito, do dia. Hoje seria uma única musica.  O amor é filme Cordel Do Fogo Encantado https://www.youtube.com/watch?v=WmUD23vzyiQ .

Se você pudesse eleger uma cena para dizer: isso é vida! Qual seria?  São três cenas… Mas eu não filmei… trata-se da primeira vez que vi o rostinho de cada um de meus filhos… Imagens que não foram filmadas mas estão gravadas em meu coração! ( comentário piegas… mas e’ a verdade … é legal não ter medo de ser romântico kkkk).

Onde estão seus maiores tesouros criativos, na mente ou no coração? Sempre no coração… “A mente coordena, mas o coração ordena!” Se for muito pela mente é capaz de não fazer nada!

Agora você está com uma nova obra Toro , fale um pouco sobre ela.  “INSUBORDINADOS”, o primeiro filme da “Trilogia da Vida Real” apresenta Janete (Silvia Lourenço) que opta pela arte como ferramenta para modificação e fuga de sua realidade cheia de angustia e sofrimentos. Agora, no segundo filme da “TRILOGIA”, (prestes ao lançamento nos cinemas ) o longa, “TORO”, dentro de uma das suas várias camadas de discussão, aborda o preconceito e a intolerância. No “Insubordinados”, eu recebi vários questionamentos sobre minha decisão de colocar uma mulher para roteirizar o filme…”comentários tristes”, que não só vieram de alguns distribuidores, ou do público, mas também de profissionais e artistas da área de produção de cinema e TV . Eu acreditava até então que a maioria das pessoas atuando na área artística seriam sensíveis, pois vivem sempre “exaltando”, o discurso das  causas de igualdade sociais. Até que na produção do filme ‘TORO” os comentários e os questionamentos foram maiores, e em relação ‘a personagem, “Alice”… (Naruna Costa) questionamentos sobre ela ser  uma mulher negra,  jornalista e viver em um apartamento bacana de classe media, ( e não ser uma empregada doméstica e não viver em uma favela)! Desta vez, as indagações caíram sobre a minha decisão de forma distorcida: a de que supostamente teria encolhido a atriz principal do filme somente como cumprimento das cotas de participação de negros em obras audiovisuais . Algo apontando tal ato como negativo em relação as cotas, que na opinião dos questionadores  essa tal “imposição” (das cotas), atrapalhava a escolha estética artística da obra.  Imediatamente em repudio tal preconceito que até então era velado e se tornou explicito.  Respondo que se trata de um filme contemporâneo e que hoje felizmente temos milhares de jornalistas, médicas, advogadas negras, não o suficiente ainda , mas temos, e a razão natural, ( com toda honestidade intelectual)  que  foi e sempre será  o quesito básico pra minha escolha da atriz , foi somente, ela ser uma pessoa, ser mulher e ser ótima atriz! Sou a favor de uma reparação em referência  aos enormes erros que o mundo opressor cometeu no passado contra os negros, contra os índios, contra as mulheres, gays… não importa que isso tenha acontecido a 200, 400 ou 2 anos, e sabendo que a maioria dos oprimidos ou os descendentes desses oprimidos, pedem somente respeito e não “facilidades “. Acho hediondo  alguém tentar distorcer a intenção de minha escolha ou minha opinião em beneficio próprio, utilizando isso para contrariar meus pensamentos e minhas convicções.

Cinema é…..  Cinema é algo que precisamos … assim como a literatura e a música!  Porque só a vida, não basta!

 

Trailer Toro a nova obra de Edu Felistoque:  https://www.youtube.com/watch?v=jjqL_Bxn0_0

Contato: www.felistoquefilmes.com

 

” DEU CERTO “ , com Edu Felistoque!

A arte está em cada minuto dos nossos dias, guarde no coração todas as suas cenas.

Até a próxima… Namastê!

Michele Vanzella